Bezerra e a superficialidade
Reinaldo Caruso
Todos lamentamos a morte do sambista Bezerra da Silva, anteontem, aos 77 anos, após uma internação de 80 dias por problemas respiratórios. Grande figura para o samba, para a cultura popular.
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O sambista Bezerra da Silva, que morreu na última segunda-feira |
Com a partida, pipocaram análises de sua obra nos jornais. Um texto que me chamou a atenção, escrito por Haroldo Costa no caderno Ilustrada (Folha) de terça-feira, fazia referência ao fato de seu estilo ter sido amplamente aceito nas camadas mais altas, justamente aquelas que Bezerra, com bom humor, atacava em nas letras. A constatação foi claramente abordada ao lado da atribuição a Bezerra do papel de precursor do rap.
Por isso, o artigo, veremos mais adiante, atesta uma semelhança, sim, entre as rimas de hoje e o versar de ontem, mas involuntariamente. O argumento explícito da comparação, no entanto, é superficial: ele antecedeu o rap porque abordava a periferia.
Mais uma vez fica evidente que, se o rap –e, num âmbito maior, o hip hop- chegou às vias de fato do mercadão, chegou tão rápido e tão cheio de estigmas que ainda suscita o olhar quase piedoso dos avalistas da mídia. Estes, não se pode esquecer, representam, na maioria das vezes, o olhar enviesado das elites do conhecimento, para quem as manifestações das periferias são sempre algo exótico, mas que não ultrapassam nunca esta esfera e permanecem sempre como arte menor, a serem observadas como coelhos por um cientista.
Aqui acontecem três fenômenos subseqüentes.
Existe uma generalização acompanhada de uma simplificação dos fatos. Rap fala da periferia, Bezerra fala da periferia, um é conseqüência do outro. Para acabar com a generalização: alguns grupos de rap falam apenas da periferia, suas belezas e suas mazelas. Outros misturam este a outros temas. Outros, sequer citam a periferia. Rap é um gênero musical e, como tal, expressa pensamentos, sejam quais sejam. Não foi escrito, ainda, um regulamento que cerque seu campo de ação.
Segundo: obviamente, muitos rappers devem ter-se influenciado pela sagacidade nada verborrágica de Bezerra e por sua capacidade de síntese sobre a vida no morro. Mas a expressão, no meu ponto de vista, nasce da influência ambiente. Acredito que o predecessor, aqui, é a miséria e o sofrimento. Estes aspectos despertavam em Bezerra a ironia; em Cartola, o lirismo; em alguns rappers, a indignação, vociferada em rimas; e por aí vai.
Talvez Bezerra tenha sido único em sua linguagem e talvez aí esteja sua maior contribuição para o rap. A ótica é diversa, mas a motivação é a mesma. A renovação parcialmente promovida por ele na linguagem do samba, tributária de sua origem nordestina (cheia de humor ácido), deve ter, sim, influenciado o rap. Mas vamos segurar o deslumbre.
Para arrematar o arremedo, a conquista das elites não é senão um reflexo triste de como a história se repete ao longo dos anos. Este é o atestado involuntariamente assinado por Haroldo Costa. Bezerra antecedeu, sim, os rappers. E foi antecipado por outros sambistas nas décadas anteriores, que viram seu trabalho “admirado” por um público entediado, cansado da burocrática finesse. Que foram antecedidos por outros artistas populares amplamente aceitos pelas classes dominantes, aqui e ao redor do mundo, e assim por diante até onde a memória alcança.
Não se trata de compreender a favela, de se admirar sua resistência. Trata-se de apreciar o que, para as classes de cima, aquelas que ainda acham que pobre é pobre porque não trabalha, é exótico e guarda a contestação espontânea inexistente no mundo perfumado dos fraldinhas.
Assim como parte das elites abraçou Bezerra, o endinheirado dos Jardins ouve racionais no seu Audi TT, fazendo cara de mau, sem saber que, como malandro, ele dá um bom pato no morro.
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 10h37
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Guia Soulseek Cachorro Velho
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O
músico e ativista Fela Kuti |
Aí vão mais dez músicas, depois de certo atraso. Faço
esta lista semanalmente porque acredito que ela seja útil a algumas pessoas,
embora tenha percebido, já, certo descaso a respeito por parte de
outras.
Em todo caso, atenção a esta versão carregada de latinidade de “A
Night in Tunisia”, de Dizzy Gillespie, por Michel Camilo.
Outro destaque
é o afrobeat “You no Go Die”, do ativista Fela Kuti. Divirta-se quem puder
Reinaldo Caruso
1.
“Bad Reception” – Organic Thoughts 2. “Cleva” – Erykah Badu 3.
“Greensleeves” – John Coltrane 4. “Heatrays” – Antipop Consortium 5.
“Astronomy (8th Light)” – Black Star 6. “In my Continental” – Atmosphere
7. “You no Go Die” – Fela Kuti 8. “A Night in Tunisia” – Michel Camilo
9. “Sweet and Lovely” – Thelonious Monk 10. 10. “Naturally” – Hilton Ruiz
cachorrovelho@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 13h52
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Guia Soulseek Cachorro Velho especial
Reinaldo Caruso
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| O trompetista Lee Morgan | De volta ao mundo real, onde a liberdade pode custar seu salário e o sol esporadicamente aparece pela janela do seu departamento, entre prédios.
Com uma lista especial de 20 músicas, o guia Soulseek Cachorro Velho volta com medalhões do velho e do novo cenário, como que para lembrar que o novo ano está aí, mas que velhos paradigmas, bons e maus, nos acompanham desde sempre –e adiante.
Ao que tudo indica, 2005 promete. Alguns amigos a quem queremos bem, parece, encontram novos caminhos. Os inimigos que vale a pena ter continuam aí, firmes e fortes, cheios de razão e argumentos, colaborando para nosso crescimento. Outros, pobres coitados, vêem seus castelos de pequenez espiritual desmoronarem com a mesma rapidez que foram construídos, a despeito de suas expectativas de mudar o mundo –para pior.
Há uma onda a ser furada, mas poucos a enxergam. Ela é quase invisível, mas tão forte quanto a tsunami que avassalou a Ásia. Ela vai arrastar quem estiver distraído, movida pela sordidez dos porcos que guardam a sujeira embaixo do tapete, fingindo não perceber que a miséria, parafraseando Silvio Santos, “é coisa nossa”.
Mas a arte, aquela de verdade, que escapa à mão dos novos mecenas, das cafetinas de plantão, loucas para vender talento a preço de saldão, está aí, para ser apreciada, imitada, reciclada, criticada e, sobretudo, respeitada.
(Reinaldo Caruso)
1. C.T.A.” – Chet Baker 2. “Toogs” – John Scofield 3. “Con Alma” – Jaz Sawer 4. “Sunny” – George Benson 5. “Alone Together” – Chet Baker 6. “Little One” – Herbie Hancock 7. “Picadillo” – Eddie Palmieri 8. “One for Griot” – J-Live 9. “Whatever” – Jill Scott 10. “Mogie” (Take 2) – Lee Morgan 11. “Killer Joe” – The Jazztet 12. “Living is Beautiful” – Pep Love 13. “Renaissance” – Organic Thoughts 14. “Ev’ry Time We Say Goodbye” – John Coltrane 15. “Wave” – Elis Regina 16. “Wee Tina” – Donald Byrd 17. “Ode to Charlie Parker” – Eric Dolphy 18. Dolphin Dance – Herbie Hancock 19. “Squat” (feat. Mike D and Ad Rock) – De La Soul 20. “World on Wheels” – Dilated Peoples
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 10h29
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Nota solta
Estou em férias, mas certas coisas não dão trabalho. Pegar no pé de Álvaro Pereira Jr. é uma delas. Na segunda feira, em sua coluna, ele escreveu, no "CD Player":
"PLAY - 'Little Acorns', White Stripes "Nunca tinha dado a menor atenção a essa música, até que ela surgiu do nada no meu tocador de MP3. Refrão: 'Faça como o esquilo, menina/ Faça como o esquilo'."
Ele só pode estar fazendo pouco caso das nossas caras, leitores.
Álvaro, Álvaro. Meu, caro, isso é mais engraçado do que disco ao vivo do Oswaldo Montenegro...
(RC)
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 14h22
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Guia Cachorro Velho Soulseek em férias
A lista semanal de sons para baixar no Soulseek volta em breve. O Cachorro Velho está em férias, e o computador do trampo faz falta pra ouvir um som...
De qualquer forma, notícias serão sempre postadas. Acesse.
(RC)
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 13h47
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Spanto Records lança disco de instrumentais
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A Spanto Records (www.spntrec.com) lança, no próximo dia 10, o LP “SPNT Instrumentals Vol. 1”. A festa acontece na Torre, a partir das 23h, com shows de alguns dos artistas presentes no disco: Coleste, 48R40, MJP, além do grupo Primeira Audição.
Akin e Acido Sonico são os MCs convidados.
A Torre fica na rua Mourato Coelho, 569, na Vila Madalena, São Paulo (SP). (RC)
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 08h31
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Ouça música com responsabilidade
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| Dave Brubeck |
Sem muito para dizer, apenas que a pobreza de espírito
atinge níveis inimagináveis. Mas isso é tema para vários textos ao longo desta
existência.
Enquanto isso, aprecie o que de bom a internet pode nos
oferecer. Dê bananas às majors e aos picaretas de plantão. Ouça música com
responsabilidade.
(Reinaldo
Caruso)
1. “Superfly” – Curtis Mayfield 2. “Getting Closer to God
– Krumbsnatcha” – Roc Raida 3. “Body and Soul” – Dave Brubeck 4. “A Love
Supreme” (partes 1 e 2) – John Coltrane 5. “I’ll Be Around” – Clifford
Jordan 6. “Rhytmorama” – Kenny Burrell 7. “Booty” – Erykah Badu 8. “In
the Flesh” – Jurassic 5 9. “Living for the City” – Stevie Wonder 10.
“Earth Travelers” – People Under the Stairs
cachorrovelho@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 12h44
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Nota solta
Álvaro Pereira Jr. tenta justificar
hoje, em sua coluna (clique
aqui),seu extremo mau-gosto. Tenta explicar aos leitores por que crítica
musical, no final das contas, é um imenso espaço do jornal dado a fãs que sabem
escrever mais ou menos.
Para isso, usa opiniões do líder do Franz
Ferdinand, Alex Kapranos, e do jurássico oportunista reacionário Briam Wilson.
(Eu não pagaria para ver um show do Paul McCartney. Dane-se a importância
histórica.)
Acho que estamos andando em círculos. (RC)
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 10h29
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Hieroglyphics, underground nacional e cinema: tudo grátis
Reinaldo Caruso
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Eugene McGuinness/Hieroglyphics Imperium |
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| Souls of Mischief em show na Flórida | Para quem perdeu os eventos caros deste ano (Sonar e Tim Festival, porque o resto é resto e não conta), não vai sobrar pouca coisa. Nos dias 11 e 12 de dezembro, os Hieroglyphics fecham o calendário de shows de 2004.
Representado pelo Souls of Mischief, pelos MCs Pep Love e Casual e pelo produtor Domino, o coletivo californiano é a atração internacional do Indie Hip Hop 2004. (No ano passado, o evento trouxe o Blackalicious.)
No sábado (11), tocam Parteum & Rua de Baixo, De Leve & Max B.O. e Hieroglyphics. Na tela, o documentário “Aqui Favela: o Rap Representa”, de Júnia Torres e Rodrigo Siqueira.
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Hieroglyphics Imperium |
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Pep Love, do Hieroglyphics | No domingo (12), a festa para os ouvidos é comandada por Instituto & Záfrica, Black Alien & Mamelo Soundsystem e Hieroglyphics. Haverá ainda exibição do longa “O Invasor”, de Beto Brant.
O evento tem entrada gratuita (é necessário retirar ingresso no local). Resta saber se, além de tudo isso, o Indie Hip Hop 2004 vai reservar surpresa à altura da revelada em 2003, quando Chuck D subiu ao palco com o Instituto e salvou quem não teve grana para ver o show do Public Enemy.
Exigente...
. Indie Hip Hop 2004 Dias 11 e 12 de dezembro, das 17h às 22h, no Sesc Santo André: r. Tamarutaca, 302, Santo André (SP)
. Atrações Parteum & Rua de Baixo, De Leve & Max B.O., Instituto & Záfrica, Black Alien & Mamelo e Hieroglyphics; filmes “Aqui Favela: o Rap Representa” e “O invasor”
. Quanto: grátis
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 09h55
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Cachorro Velho corre atrás do leitor.
O Cachorro Velho agora vai correr atrás de você, mas não pra morder. Agora, com o botão RSS, você pode ser informado automaticamente da atualização do blog, sem ter que acessá-lo.
Para saber mais sobre a tecnologia, clique aqui. Nesta página, o UOL dá uma lista de agregadores que você pode baixar na internet. Daí é só clicar com o botão direito do mouse na imagem RSS do meu blog e adicionar o atalho ao seu agregador. (RC)
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 09h56
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Black Alien amarra roteiro em disco solo
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Capa do primeiro disco solo de Black Alien | Reinaldo Caruso
Voltem com seus barcos para o cais. Armado de sua caneta, irradiando luz, o raggamufin samurai Black Alien vem combater os demônios imorais. Após parcerias, experimentações e um tanto de repressão, ele lança seu primeiro trabalho solo, “Babylon by Gus Volume 1 – O Ano do Macaco” (Deckdisk). Disco para mais de uma audição (a primeira pode causar estranhamento), a sensação guardada é de metalinguagem: a música é imagem.
Black Alien demonstra perícia para descrever personagens de cenários que espelhem o exagero da arte, mas guardam, tão implícita quanto os cegos queiram, a real cotidiana. Suas rimas retratam ora cenários caóticos, ora a sensualidade e o amor, sempre dentro de um clima onde a paz beira o caos e vice-versa. A maldade e a bondade, nesse universo, não são gratuitas. São tributárias, devem-se. O antídoto é destilado pelas minorias.
Pé no chão, de volta da viagem, o disco ganha também com a produção de Alexandre Basa (Instituto e Mamelo Sound System). Embora cheias de referências ao ragga para sustentar o flow de Black Alien, as bases não pecam pelo excesso costumaz dos ritmos jamaicanos quando produzidos a esmo. Não há as caixas excessivamente molhadas de reverb e delay, nem escaletas perdidas.
Bilíngüe, “Mister Niterói” abre o disco com sample de cítara que instiga reflexão, seguida de um recado às falsas e verdadeiras amizades (“Caminhos do Destino”). “Babylon by Gus” sustenta-se na erudição do piano sampleado para sofisticar a leitura da sórdida Babilônia, por Gus Black Alien.
Um dos melhores refrões do disco, “U-Informe” levanta o clima, embora a temática não seja de festa. A base mistura guitarras distorcidas (do ex-Planet Hemp Raphael Crespo) ao som de sirenes sem, acredite, soar batida.
Após uma volta pelo porto seguro do amor e beirando o pop (“Como Eu Te Quero”), “Umaextrapunk Rumextrafunk” joga p-funk no ventilador para quem se arriscar a ficar na frente.
Daí ao fim do disco, Black Alien desenvolve seu documentário de forma coesa, como quem não quer chegar ao fim sem argumentos convincentes. Entrecortado de impressões, é fragmentado em episódios. Mas o resultado aparece homogêneo, num roteiro que amarra personagens e situações às vezes díspares.
Mesmo após os momentos mais tensos, “Babylon by Gus Volume 1 – O Ano do Macaco” conforta. O caos da Babilônia está à espreita, mas no submundo os guardiões ainda empunham suas canetas.
Viaja...
cachorrovelho2@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 10h19
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"Kind of Blue": um divisor de águas
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Capa do disco “Kind of Blue”, de Miles Davis |
Já citei Miles Davis sete vezes neste blog. E esta, com certeza, não será a última. Mas a música indicada neste guia vem do disco “Kind of Blue” (Columbia/Legacy), gravado em 1959. Neste caso, vale poupar o caro leitor-ouvinte do trabalho desnecessário: baixe o disco inteiro.
Trata-se de um divisor de águas do jazz. (Recriar a história da música, por sinal, viria a ser um costume de Miles.) Neste disco, o tema mais famoso é “So What”, considerada por muitos a inauguração do jazz modal, onde a improvisação acontece focada sobre cada acorde, individualmente.
Miles comprova também seu tato para formar times: John Coltrane (sax tenor), Bill Evans (piano), Cannonball Adderley (sax alto), Paul Chambers (baixo), Jimmy Cobb (bateria). Provavelmente uma das formações mais coesas da história do jazz.
(Reinaldo Caruso)
1. “Take my Hand” – Johnny Griffin 2. “Listen Here” – Gene Harris 3. “Sun Bath” – Woody Shaw 4. “Jordu” – Jaz Sawyer 5. “Meanwhile” – Gonzalo Rubalcaba 6. “Flamenco Sketches” – Miles Davis 7. “In a Sentimental Mood” – Milt Jackson 8. “Stella by Starlight” – Grant Green 9. “Searching” – Roy Ayers feat. Erikah Badu 10. “The Cat” – People Under the Stairs
cachorrovelho@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 09h33
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Joss Stone: em terra de cego...
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| A nova “diva do soul” Joss Stone |
Reinaldo Caruso
Fiquei curioso para ouvir o novo disco de Joss Stone, “Body, Mind and Soul” (EMI)–nome muito bem escolhido, por sinal. O primeiro álbum da cantora inglesa, “The Soul Sessions”, me passou a sensação de que algo podia ser amadurecido (embora talvez nunca chegasse ao patamar que almejava). Carente de produção, o disco parecia ter saído meio às pressas, talvez para atender aos anseios das madrinhas e dos padrinhos que apostaram suas fichas na moça.
Pois este último trabalho superou este problema. Feito, ao que parece, com um pouco mais de tempo e esmero, traz arranjos melhores, harmonas mais bem-sacadas e em alguns momentos chega até a fazer o ouvinte mergulhar no universo “vintage” a que remete.
Curiosamente, sendo álbum de carreira-solo, “Body, Mind and Soul” só tem um problema: a cantora. A ansiedade de Stone para se tornar uma nova diva branca da black music enterra todo o esforço dos produtores em fazer um bom trabalho.
Faltou persona. Ela até começa comedida na faixa “Right to Be Wrong” e dá sinais de que não vai exagerar desta vez. Em seguida, porém, se esforça tanto para demonstrar inspiração e feeling que deixa constrangido quem já tenha um dia ouvido Aretha Franklin. Da respiração forçosamente emocionada ao uso desmedido de vibratos, ela abusa de qualquer recurso de voz para valorizar sua interpretação, transformando cada faixa num show de cacoetes e o disco num conglomerado totalmente engordurado, saturado.
Seus flertes com a black music moderna só reafirmam o desejo de atingir grandes audiências se desmembrando em vários subgêneros, uma constante no maravilhoso mundo das majors. O único mérito de Stone neste disco é ter composto quase todas as faixas. Arre.
Percorri faixa a faixa à espera da comentadíssima “Less Is More”. Sabia que se tratava de um reggae, e o nome me lembrou uma frase de Miles Davis para definir sua filosofia musical, baseada em poucas notas bem-colocadas. Mais constrangimento. A faixa está para o reggae como Alexandre Pires está para os bambas.
Galerinha exagerada As resenhas sobre “Body, Mind and Soul” tratam de outra Joss Stone, não a que ouvi no disco. Fala de uma cantora madura que emerge como a nova esperança do soul.
Supervaloriza-se o fato de ela ter composto várias das faixas (mesmo o resultado sendo o que é). No mundo das Britneys e Aguilleras, qualquer iniciativa de auto-gestão é considerada um milagre pelos críticos. O que pode ser mais embaraçoso? O fato de ela se destacar por ser um belo rosto branco ou a audiência acreditar que se trata realmente de uma cantora comparável a nomes como Aretha apenas porque é amadrinhada por Betty Wright?
Acredito que o mais triste é realmente o fator beleza se sobrepor ao talento. Joss Stone não traz nada além de uma voz fanha pretensamente matadora. E, se ganhou páginas de elogio na mídia, é porque, além de um bom trabalho de marketing, tem dois olhos em uma terra de cegos.
Ainda vai levar tempo para eu conseguir ouvir um disco seu até o fim. Ainda há quilômetros a serem percorridos para ela chegar perto de Erikah Badu, Jill Sott e Macy Gray –que individualmente dificilmente ganham tanto espaço numa página.
cachorrovelho2@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 08h32
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Nada mais me surpreende
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| O saxofonista John Coltrane |
Para quem ainda acredita na música e por ela vive, com alguns dias de atraso, mais um guia do Cachorro Velho.
Destaque para dois dos medalhões do jazz, John Coltrane e Cannonball Adderley, ambos membros do lendário grupo de Miles Davis quando da gravação de “Kind of Blue”.
Coltrane combina bem com estes dias: a trilha sonora para quem não se surpreende com mais nada.
(Reinaldo Caruso)
“Round Midnight” – Sarah Vaughan “Lifter Puller” – Atmosphere “Bakai” – John Coltrane “Get it Right” – Organic Thoughts “The Man I Love” – Miles Davis “Flutie” – Curtis Fuller “Zignaflyinblow” – People Under the Stairs” “Straight, No Chaser” – Cannonball Adderley “Dont Drag Me in” – Braintrax “Travellin Man” (rmx) - Mos Def & Dj Honda
cachorrovelho@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 07h53
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Para curar o desespero: boa música
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A diva imortal Ella Fitzgerald |
Semaninha complicada a última. O povo norte-americano deu bananas ao mundo e reelegeu o burro chucro para mais quatro anos de matança por petróleo. O eleitorado paulistano mostrou que incapacidade argumentativa não é problema: conservadorismo é a palavra. Iasser Arafat, entre a vida e a morte, cai como uma luva para que o mundo mergulhe na era da polvorosa.
Uma listinha de boas músicas para acalmar os ânimos (Ella é o remédio), consolar os perdedores (Miles Davis Quintet, com “Circle”, do disco “Relaxing with Miles Davis Quintet”) ou para extravasar a revolta (Atmosphere).
(Reinaldo Caruso)
1. “Pull Out Your Cut” – Mr. Lif 2. “The Day of Wine and Roses” – Ella Fitzgerald 3. “The Shape of Things to Come” – Dilated Peoples 4. “Easy Living” – Cannonball Adderley 5. “Circle” – Miles Davis Quintet 6. “Higher Degree” – Organic Thoughts 7. “Till There Was You” (Take 3) – Sonny Rollins 8. “D-Natural Blues” – Wes Montgomery 9. “In My Continental” – Atmosphere 10. “Invitation” - John Coltrane
cachorrovelho@uol.com.br
Escrito por Cachorrovelho (Reinaldo Caruso às 09h25
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